05 Julho, 2009

The Talking Asshole Routine

"Did I ever tell you about the man who taught his asshole to talk? His whole abdomen would move up and down you dig farting out the words. It was unlike anything I ever heard.

This ass talk had sort of a gut frequency. It hit you right down there like you gotta go. You know when the old colon gives you the elbow and it feels sorta cold inside, and you know all you have to do is turn loose? Well this talking hit you right down there, a bubbly, thick stagnant sound, a sound you could smell.

This man worked for a carnival you dig, and to start with it was like a novelty ventriliquist act. Real funny, too, at first. He had a number he called “The Better ‘Ole” that was a scream, I tell you. I forget most of it but it was clever. Like, “Oh I say, are you still down there, old thing?”

“Nah I had to go relieve myself.”

After a while the ass start talking on its own. He would go in without anything prepared and his ass would ad-lib and toss the gags back at him every time.

Then it developed sort of teeth-like little raspy in-curving hooks and started eating. He thought this was cute at first and built an act around it, but the asshole would eat its way through his pants and start talking on the street, shouting out it wanted equal rights. It would get drunk, too, and have crying jags nobody loved it and it wanted to be kissed same as any other mouth. Finally it talked all the time day and night, you could hear him for blocks screaming at it to shut up, and beating it with his fist, and sticking candles up it, but nothing did any good and the asshole said to him: “It’s you who will shut up in the end. Not me. Because we dont need you around here any more. I can talk and eat and shit.”

After that he began waking up in the morning with a transparent jelly like a tadpole’s tail all over his mouth. This jelly was what the scientists call un-D.T., Undifferentiated Tissue, which can grow into any kind of flesh on the human body. He would tear it off his mouth and the pieces would stick to his hands like burning gasoline jelly and grow there, grow anywhere on him a glob of it fell. So finally his mouth sealed over, and the whole head would have have amputated spontaneous — (did you know there is a condition occurs in parts of Africa and only among Negroes where the little toe amputates spontaneously?) — except for the eyes you dig. Thats one thing the asshole couldn’t do was see. It needed the eyes. But nerve connections were blocked and infiltrated and atrophied so the brain couldn’t give orders any more. It was trapped in the skull, sealed off. For a while you could see the silent, helpless suffering of the brain behind the eyes, then finally the brain must have died, because the eyes went out, and there was no more feeling in them than a crab’s eyes on the end of a stalk."


(William S. Burroughs in Naked Lunch)

MADRIGAL MELANCÓLICA

O que eu adoro em ti
Não é sua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Mas é o espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é tua ciência
Do coração dos homens e das coisas

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza
O que adoro em ti lastima-me e consola-me
O que eu adoro em ti é A VIDA !!!

(11 de junho de 1920, Manuel Bandeira).

28 Junho, 2009

Trama (Diálogo entre a Cabeça de Jeremy Bentham e A Voz na armadura).

"Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência."
(Luigi Pirandello)

Cabeça _Me sinto num jogo do qual eu já deveria saber as regras há muito tempo mas, por alguma razão que igualmente desconheço, faz com que eu perca exatamente aquilo que penso ser o mais valioso. Embora eu também não tenha absoluta certeza desse valor. Não o sinta...
A Voz _E se a vida for uma série de operações matemáticas, cheia de fórmulas, regras e valores? Terás tempo suficiente pra recapitular tanto conteúdo? E se houver uma avaliação, quem é que avalia, e com base em que critérios?
Qual é o termômetro da vida? Felicidade? Prazer? Dor? Sentido? Beleza?
Nesse sentido, isso te confere maior ou menor valor como pessoa?
Cabeça _E o que é uma pessoa? Não é um ser racional por excelência?
Não adoramos todos, aquela fagulha de inteligência que partilhamos com uma pessoa ao perceber, num olhar simultâneo, o que escapa a todos os outros presentes. E não atribuímos a essa pessoa um valor maior do que às outras, que seguem obtusas, sem nada distinguir do ocorrido?
A Voz _Nesse sentido o que amas no outro é tu mesmo, ou a imagem daquilo que acredita seres e não a outra pessoa. Amas acreditar que és especial e amado. Isso, e só isso basta.
Cabeça _Dessa mórbida constatação deriva que não me é permitido sentir o valor de outrem a não ser como reflexo da libido que investi e que já esperava de volta. Quando essa resposta cessa, sinto que o outro, parâmetro de meu valor, perde valor e encanto, o que numa dialética doentia mina também meu valor numa crescente, fria e devastadora bola de neve. Abominável Sísifo de gelo. Narciso prateado.
A Voz _Sim. Mesmo agora enquanto te masturbas com essa névoa de raciocínios tolos não sentes sinceramente que algo te foge de essencial, algo que tu, um ser racional, em já tantos anos percorridos, deveria saber, poder fazer, querê-lo?
Cabeça _Uma coisa é certa: não sinto meu próprio valor como pessoa, a não ser em determinados momentos e em relação a determinados aspectos; acredito saber agora, por exemplo, reproduzir a realidade através do desenho melhor do que um grande número de pessoas o que, teoricamente me confere um status de artista (embora pessoalmente não tenha do que seja arte idéia mais clara e definida e desconfio que ninguém saiba ao certo o que seja isto, desde as pinturas nas cavernas).
A Voz _Agora Lascaux!
Cabeça _Acredito ser isso, não uma dádiva, mas algo que desenvolvi ao longo do tempo através de esforço, repetição e exercício. Não sei por que exatamente o desenho ao invés da escrita, ou da música, por exemplo.
A Voz _Talvez porque, dentre as atividades ligadas aos sentidos seja a mais mensurável e impessoal. A arte visual proporciona, mesmo exige, do artista, um distanciamento necessário, mesmo físico, instrumental, bem como um maior controle; e do fruidor, que se conserve à parte, a contemplar respeitosamente, a julgar.
A mão, motor que guia o desenho, é menos suscetível ao contágio, a despeito do que acontece com o ouvido - e por fim todo o corpo – através da música. Isso sem falar do olfato e paladar relegados ao esquecimento.
Cabeça _O fato é que o desenho funcionou por muito tempo como um álamo, uma válvula de escape, uma sublimação da realidade, uma idealização do mundo hostil e solitário de minha infância, à mercê de uma mãe católica, asséptica, superprotetora e manipuladora , pra quem tudo é pecado, de um pai nulo, alcoólatra, batendo cartão em casa, como fez no seu trabalho durante trinta e cinco anos, além de três irmãs mais velhas, num ambiente predominantemente feminino, cheio de tabus, enigmas e segredos.
A Voz _Pensas que és tu a vingança silenciosa e mal sucedida de teu pai em querer perpetuar-se como macho, realizar o que ele não se sentia ser capaz de fazer, ser Homem? Acaso és um homem?
Cabeça _Talvez menos, uma tranqüilizadora e por isso última tentativa de meu pai de provar que não havia nada de errado consigo mesmo após gerar, uma após outra, três mulheres.
A Voz _Percebes que isso é sobremaneira eloqüente a respeito de tua avaliação em relação ao sexo feminino, não?
Cabeça _Deveras frustrante e embaraçoso... Uma cabeça, é o que sou. Tenho órbitas.
A Voz _No mais...
Cabeça _Fui castrado, é verdade. Nisso minha mãe foi eficiente, podando desde cedo todo e qualquer instinto potencialmente agressivo que pudesse vir a manifestar, torcendo uma possível repetição de meu pai, até ser menos que um homem impotente, uma moça desprotegida. E agora não sei como recuperar minhas bolas. Acaso passeiam convulsas no terço pelos dedos de minha mãe? E onde estarão as bolas de meu pai? Quiçá atrofiadas, curtindo numa garrafa de pinga, à qual recorre religiosamente, sem sucesso.
A Voz _Digo que tens prazer e vergonha imediatas, sei que te deleitas e nutres pavor extremos de assim expor, aberta e prontamente, tuas podridões e vergonhas, à espera de pena e aprovação.
Cabeça _E sinto culpa.
A Voz _E tens culpa.
Cabeça _E, contudo, num átimo de lucidez, a certeza racional de serem coisas tão pequenas, previsíveis, óbvias e mesquinhas, tão sem importância quanto possível perante os olhos matemáticos das pessoas.
A Voz _Como um menino displicente e preguiçoso, relutante em decorar sua tabuada, que afinal é a mesma pra todos. Estás ouvindo? A Voz amável de tua mãe dizendo o quão feio e sem jeito é isso, que não deve ser assim? A suportas? A odeias?
Cabeça _A mim e À Voz. Sem esperanças. Cansa mais ser que interpretar. Prefiro os jogos de azar ao blefe cúmplice e laborioso do si consigo mesmo.
Não entendo e odeio não entender.
A Voz _E porque teu maior medo é ser inadequado e tolo, sofres por não saber...
Cabeça _E minto.
A Voz _E odeias mentir.
Cabeça _E odeio.
A Voz _E odeias odiar.
Cabeça _E vivo embora às vezes odeie viver...
A Voz _Como alguém que não sabe perder. Morres de pena de si e te odeias.
Cabeça _E amo e odeio as pessoas que concordam que é preciso ter pena de sujeito tão pobre, sofrido e impotente a começar por meus pais que me trouxeram a essa farsa degradante de amor, do qual são, somos todos ignorantes. Que, sem dizer, por trás de suas máscaras sorridentes de óleo quente, me fizeram acreditar a vida toda que sou feio, inepto e inadequado, fadado ao mal-sucesso, torpe, indigno de respeito, como eles mesmos, de onde nada de bom poderia sair.
A Voz _Mas não os odeias sobretudo. Odeias bela e indiscriminadamente, como uma chama em presença do oxigênio. És uma bela e funcional máquina dentada, embora algo melancólica, funcionando sempre a meia potência.
Cabeça _Mas, o pior e mais trágico, mais do que acreditar que fui feliz, é que sei que fui feliz, senti que fui feliz e talvez isso seja o mais horrível de tudo, pior que a insípida inconsciência de ser. Afirmo que fui feliz como dois e dois são quatro e já essa verdade matemática, e tudo o que quer que seja verdade, é menor e menos óbvio e menos palpável do que eu dizer que fui feliz. Porque posso demonstrar com quaisquer objetos à mão o que seja quatro.
A Voz _Mais que isso, é imprescindível que tu o faças toda vez.
Cabeça _Ninguém pode me dizer que não fui feliz, nem eu mesmo posso querer negar a mim mesmo. Talvez mais tarde, o faça, negue, me convença, ou simplesmente me aperceba do real (mas e o que é o real? coágulo inexorável, derrame latente, impugnativo, palpitando na cabeça).
A Voz _(irônica) Onde mais?
Cabeça _Cala-te. Sequer isso possuis. Que conheces tu além do peso e do frio?
A Voz _Racionalizar é defender-se.
Cabeça _Mas, se é o caso, não me é possível fazê-lo agora. A ferida ainda está aberta.
A Voz _Deixa-me então subtrair-te a melhor das dores. Não és homem. És formigueiro de uma formiga só. Formiga preguiçosa e covarde, inócua, que não pica por medo do dedo esmagador, embora o saiba sobre si o tempo inteiro e há de vir, mais cedo ou mais tarde - provavelmente mais cedo - teu próprio dedo de Deus, fulminante e corrosivo raio da lente magnífica de um Deus míope, Polifemo que tudo alcança. És uma formiga inútil em seu trajeto aleatório, escritório, cega da significação de seu próprio desenho sobre a terra.
Inseto antimatemático, irrazoável em si, ignorante de seu próprio código, das relações, surdo da poesia, cego da arte, que nada sabe do sentimento, nem do ser.
Inútil que sou - de que vale uma armadura dentro da cabeça? - és sempre menos, absolutamente menos, infinitamente menos que eu.
(Silêncio.)
Súbito A.V.E.

House

("House", 70 x 50 cm, óleo sobre tela)

Wilson "_I don't blame you. I wanted to. I tried to. I must have reviewed Amber's case file a hundred times to find a way — but it wasn't your fault."
House "_Then we're okay? I mean I know you aren't but — Maybe I can help."
Wilson "_We're not okay. Amber was never the reason I was leaving. I didn't want to tell you because — because I was trying like I always do to protect you, which is the problem. You spread misery because you can't feel anything else. You manipulate people because you can't handle any kind of real relationship. And I've enabled it. For years. (...) If I've learned anything from Amber it's that I have to take care of myself. We're not friends any more, House. I'm not sure we ever were."

27 Junho, 2009

"Somente aquele que foi o mais sensível pode tornar-se o mais frio e o mais duro, para se defender do mais pequeno golpe - e esta própria couraça lhe pesa muitas vezes."
(Johann Wolfgang von Goethe)

15 Junho, 2009

A colher não existe.

A vida é difícil na Matrix.
A colher não existe.
Neo não toma sopa, portanto.
_Nem de letrinhas, tio?
_Não. Nem usa heroína, Joãozinho.
Também lá não há ingleses, por razões óbvias. Não, Charles, não tem colher de chá...
As visitas femininas chegam sempre de surpresa, não há meio de prever o fenômeno visto que ao chão só vão garfos e facas.
Resultado lógico são as freqüentes surpresas, pra lá de desagradáveis, e maior número de divórcios.
Em compensação tudo é resolvido entre marido e mulher, sem que ninguém de fora intervenha. Na verdade, entre mulher e marido (para desepero do infiel, dada a substituição obrigatória da colher de pau por um garfo, espeto de churrasco ou outra saída, inevitável e imediata. Sempre criativa, contudo).
Não há colher, nem torta!
Quero dizer, tortas, há. Mas pra comer "de garfada", o que soa um tanto antipático e inapetecente ao degustador.
E por falar nisso, no tinir dos talheres, os cursos de etiqueta resultam bem menos complicados (... ou bem mais).
Fato é que o setor de construção civil constitui um verdadeiro caos sem a ferramenta mais básica e essencial do
profissional gabaritado para tal: a colher de pedreiro. O mesmo garfo disputa aqui e ali espaço entre a marmita e o
concreto, distribuindo de um lado a outro, chapiscos de massa, carne moída e feijão preto. E embora uma nova e
interessante estética das construções tenha caído no gosto de alguns críticos (fala-se mesmo numa arquitetura mais
"substancial"), é alarmante o número de profissionais sofrendo de problemas que vão desde uma moderada prisão de
ventre até intoxicações mais sérias.
Por fim, e como era de se esperar, se o andar do progresso tem lá seus tropeços, que dirá o ambiente já sempre tão
castigado... Nessa inexorável seleção algumas espécies sofrem duros golpes. É o caso, por exemplo, do pobre pássaro
colhereiro, mais um que passa a integrar a crescente lista dos animais extintos.
Pois é... Realidade dura.
Pra engolir sem colherinha.

02 Junho, 2009

I am stuck...

"Seu pensamento insistia em cair nos mesmos sulcos, como uma bola que repetidas vezes cai no mesmo buraco. Tinha apenas seis idéias. A dor na barriga; um pedaço de pão; sangue e grito; O'Brien; Júlia; a lâmina de barba."
(1984, George Orwell)

01 Junho, 2009

The Social Contract episode - House M. D. (5th season).

The team tries to diagnose condition that leaves the patient saying anything that he thinks, no matter whom it hurts.

Kutner - "No nasal cancer and no marriage either if our patient keeps saying everything that comes into his head without regard for the consequences"
Wilson (looks accusingly at House)- "You always led me to believe you were one of a kind."
Kutner - "Luckily, jerkiness is a temporary condition for this guy."
House - "No, it's not. We may be able to fix his impulse to say his thoughts out loud, but he's always going to be the guy who thinks them."
Wilson - "He's also gonna be the guy who doesn't say them. If he's spent his whole life constructing the nice guy persona, isn't that as much who he really is as anything else?"
House - "You would argue that. You're all persona."

(...)

House - "Anyone sitting here?"
Wilson - "Just my persona."
House (takes half of Wilson's lunch)- "It's amazing the way people cling to insults. Or what they think are insults."
Wilson - "That wasn't an insult?"
House - "I'm not suggesting that like our patient you are hiding a dark sarcastic core under a candy shell of compulsive niceness."
Wilson - "I'm not always nice. I'm not nice to you."
House - "Because you know nice bores me. Hence, still nice. No, I'm suggesting you have no core. You're what whoever you're with needs you to be.... The interesting question is why. Why do you think the world will end if you're not there to save it?
Wilson - Because when my parents put me in the rocket and sent me here, they said, "James, you will grow to manhood under a yellow sun..."

(...)

Wilson - "House, you and I, we don't have the normal social contract. I don't expect you to tell me lies that..."
House - "I am fully capable of lying to you. I've lied plenty of times."
Wilson - "I mean collaborative lies. Giving sonmeone a hand who maybe need to deceive themselves just a little. For two days I've been thinking about how Danny's (Wilson's missed brother) going to react when he sees me, If I said that to anybody else they'd sat, 'Don't worry.'
You wouldn't."
House - "Because it might go horribly wrong."
Wilson - "Yeah. Yeah. It might."

(...)

House - "Does it bother you that we have no social contract?"
Wilson - "My whole life is one big compromise. I tiptoe around everyone like they're made of china. I spend all my time analyzing 'what will the effect be if I say this?' Then there's you. You're a reality junkie. And if I'd offered you a comforting lie you'd smack me over the head with it. Let's not change that."
House - "Okay."
Wilson - "No, see this!? If you were implementing the social contract, you'd say that, but only because it makes me feel better." (Wilson seems confused)
House - "It is kind of fun watching you torture yourself."

12 de Junho.

Já dizia Dioniso: _"Na casa de meu Pai há muitas namoradas".

29 Maio, 2009

Amores Possíveis por José Roberto Torero

I

José gosta de crianças mais do que tudo na vida. Ele acha que ser pai é uma graça divina, uma benção sem igual. Mas José tem um problema, é estéril. Não pode ter filhos. Por isso, quando decidiu casar, José tratou de escolher Maria, a moça com pior fama na Freguesia do Ó.
Seu plano deu certo. Maria já teve doze filhos. E o que José mais gosta é que são todos muito diferentes.


II

Dona Rosa é casada com Dr. Augusto. Dr. Augusto traía dona Rosa com uma de suas enfermeiras, Berenice. Ao que parece, dona Rosa sabia do amor do marido pela enfermeira, mas comportou-se resignadamente e jamais deu um pio. Porém, por uma dessas ironias, o grande neurologista teve um derrame e perdeu todos os movimentos. Zelosa, Dona Rosa contratou a própria Berenice como enfermeira. O resultado não foi dos melhores:
Dr. Augusto sofre profunda vergonha toda vez que sua amada Berenice dá banho no seu corpo mole e sem vontades.
Berenice chora um pouco toda manhã, pois dói-lhe muitíssimo ver seu ex-amante imóvel na cama.
Apenas dona Rosa não está infeliz, e, vez ou outra, pode-se vê-la assobiando um bolero.


III

Vladimir trabalha no necrotério. É ele quem arruma os mortos, quem lhes dá os últimos retoques antes de eles serem velados por seus familiares. Às vezes, quando a morta é jovem e bonita, ele dá ao corpo da defunta um último prazer terreno. Mas Vladimir é um bom homem e muito sentimental. Seu grande coração apaixona-se por todas suas amantes, e, por isso, ele chora muito quando se despede de cada uma delas.
Vladimir talvez seja o mais triste e viúvo dos homens.


IV

Clodoaldo ama Clodomiro. Os dois se conheceram na penitenciária há três anos e foi amor à primeira vista. Clodomiro está cumprindo 99 anos de cadeia por sete assassinatos. Clodoaldo foi condenado por furto e sairia em três dias. Mas Clodoaldo não quer esperar Clodomiro por tanto tempo. Foi por isso que matou Geremias, o preso que dividia a cela com eles. Nos próximos dez anos, pelo menos, Clodoaldo vai passar junto de seu amado Clodomiro.


V

Alexandre ama Roseméri. Roseméri ama Alexandre. Ambos trabalham na biblioteca de São José do Rio Pardo e são muito tímidos. Porém, um dia, Alexandre encheu-se de coragem e ofereceu carona a Roseméri. No caminho, pararam num bar e tomaram cerveja. Com poucos copos Alexandre ficou bêbado. Só por isso levou o carro para um terreno baldio e violentou Roseméri, que não ofereceu lá muita resistência.
Depois disso, nunca mais conseguiram conversar. Alexandre queria pedir mil perdões. Roseméri queria pedir carona outra vez.


VI

Barata jogava no bicho todos os dias. Obviamente, nunca ganhava.
Numa segunda-feira chegou em casa mais cedo e percebeu que a mulher não estava sozinha. Olhou por uma fresta e viu que o amante era Belmiro, o bicheiro. Cogitou esfaqueá-los, mas pensou melhor e resolveu armar uma vingança mais interessante.
No dia seguinte jogou todo seu dinheiro no vinte e cinco, vaca. Tinha certeza de que Deus o faria vencer. Aí pegaria todo o dinheiro, fugiria para uma praia no Ceará e abriria um bar.
Belmiro estaria falido e Roseane abandonada.
Não foi o que aconteceu. Deu quinze, burro. Sem dinheiro, Barata foi abandonado por Roseane, que virou amante de Belmiro, que está mais rico do que nunca.


VII

Nalva era a melhor e mais desejada strip-teaser da boate "Lamour". Todos a desejavam e queriam levá-la para casa. Prometiam-lhe casamento em igreja, sobrenome respeitável e filhos corados. O felizardo foi o Morais, que, dizia-se, nem piscava quando olhava para a dança de Nalva.
Na noite de núpcias, quando Nalva quis fazer seu número para alegrar o marido, ele esbofeteou-a três vezes. Depois limpou o sangue das mãos e explicou que aquilo não era coisa que uma esposa fizesse.


VIII

Dainara apaixonou-se pelos gêmeos Rômulo e Remo. Tentou de todas as formas se definir por um dos dois, mas eles eram tão parecidos nas formas do corpo e da alma que ela não conseguia se decidir. Talvez por isso tenha se casado com Filóstomo, por quem ela não possuía nenhuma grande paixão mas que, pelo menos, era filho único.


IX

Tatiana apaixonou-se por Rômulo e Remo, irmãos gêmeos univitelinos. Ela tentou de todas as formas se definir por um dos dois, mas eles eram tão iguais nas formas do corpo e da alma que ela não conseguia se decidir. Mas Tatiana é uma mulher muito prática e não gosta de perder tempo em encruzilhadas. Por isso casou com Rômulo e tem Remo como um fiel amante para as tardes de terça.


X

João amava Maria que amava João. Como acontece com muitas mulheres que são amadas por seus maridos, Maria ficou grávida. João não queria o filho, Maria queria. Por causa disso acabaram se separando. Porém, como fosse um casal de muita sorte, a criança nasceu morta.
João e Maria fizeram as pazes e viveram felizes para sempre.

XI
Adão amava Eva. Tanto que atendeu sem pestanejar quando ela lhe pediu que provasse o fruto proibido. Por causa disso foram expulsos do Paraíso e sofreram fomes e dores. Apesar de todos os sofrimentos, Adão perdou Eva. Só pediu que ela nunca lhe fizesse tortas de maçãs.
XII
Quando morreu o marido de Florisbela, ela disse que seu amor pelo defunto era tão grande que nunca mais tocaria em outro homem. Pensou até em suicidar-se para ser enterrada junto com o defunto. Porém, ainda durante os acertos do enterro, ela conheceu Felisberto, o dono da casa funerária. Foi uma paixão fulminante. Hoje eles são muito felizes e formam um casal cheio de vida.
XIII
Humberto César Camacho é o maior violinista do planeta. Ninguém toca tão bem quanto ele, com tanta paixão, com tanto sentimento. Por isso todo mundo achou estranho quando ele casou com Izildinha, uma jovem muito bela e apaixonada, mas completamente surda.
A explicação de Camacho foi convincente. Ele disse que queria uma mulher que o amasse como homem, não como músico.
XIV
O senhor Brumário começou a beber logo depois do casamento com dona Gertrudes. Ela ameaçou deixá-lo se ele não parasse com o álcool. O senhor Brumário parou por duas semanas, mas logo voltou a ser assíduo frequentador dos bares da cidade. Dona Gertrudes ameaçou uma segunda vez com a separação, mas desta vez o senhor Brumário deu um bom gole e disse que não trocava sua bebida por nada. Dona Gertrudes decidiu tomar uma atitude: também começou a beber.
Agora, todos os dias, depois do trabalho, eles podem ser encontrados no Bar do Alemão; e não há um casal mais alegre em Ribeira da Serra.

XV
Mara Beth e Roberval trabalhavam na mesma empresa. Ela traía Roberval com o chefe de Recursos Humanos, com o Gerente de Vendas e até com o Presidente da empresa. Por isso ninguém estranhou quando Roberval foi promovido a diretor. Surpresa mesmo foi quando encontraram Mara Beth dentro da lixeira do prédio, enforcada com uma gravata italiana e a boca cheia de hollerits.

XVI
Amâncio era pastor. Não de igrejas, mas de campos. Entre todas as suas alimárias, Amâncio tinha predileção por Rosita, uma cabra com orelhas grandes e ancas largas. Por sua causa, Amâncio desprezou as melhores moças da cidade. Os dois viviam em grande paz e infinito amor, até que um dia Amâncio surpreendeu Rosita com Brasão, um dos bodes mais velhos e feios daquele pasto.
No domingo seguinte, Amâncio serviu uma buchada sensacional para seus amigos.
E durante todo o almoço, apesar do calor, Amâncio vestiu um casaco de lã.
XVII
Alice, 81, e Romualdo, 83, são vizinhos desde crianças. Ela sempre foi apaixonada por Romualdo. Ele, indiferente aos sentimentos de Alice, casou-se com uma tal de Maria Clara. Durante sessenta anos Alice esperou por seu vizinho e jamais teve outro homem.
Ano passado, quando ele ficou viúvo, começaram a se encontrar. Três semanas depois Alice desmanchou o namoro. Romualdo não era bem o que ela esperava.

XVIII
Josué é garçom, Clarice era garçonete. Josué namorava Clarice. Mas, infelizmente, ela apaixonou-se por Paulo Afonso, um dos melhores e mais ricos clientes do restaurante.
Afonso e Clarice planejaram se casar e fazer uma festa enorme, coisa para trezentos convidados. Por ironia, um dos garçons contratados pelo buffet foi justamente Josué, que ficou muito surpreso quando viu quem eram os noivos.
Josué queria vingança. Pensou em dar tiros nos convidados, cogitou esfaquear Afonso, imaginou-se estrangulando o padre.
Fez pior que isso. Quando chegou perto de Clarice, deixou cair o estrogonofe em seu vestido branco.
XIX
Mário e Maria Sanchez são os únicos trapezistas nacionais que conseguem dar o salto triplo mortal sem rede. Esse é um número que exige total confiança entre os parceiros. Mário confiava em Maria. Pelo menos até descobrir que Maria o traía com o Piteco, o Alencarço. Maria, que não sabia que tinha sido descoberta, ainda confia em Mário. Mas não devia.

XX
Marineide ia casar com Deolindo e ela mesma fez seu vestido de noiva. Porém, no dia da cerimônia, Deolindo fugiu. Marineide ficou muito triste, mas como a vida continua, começou a costurar para fora. Ficou conhecida como a melhor costureira de vestidos de noiva na região e ganhou bastante dinheiro. Deolindo, quando soube de seu sucesso, voltou e pediu Marineide em casamento. Marineide, orgulhosa mas apaixonada, encheu o peito e disse: aceito! Só exigiu que o vestido fosse feito por outra costureira.

XXI
Dr. Fortes é um dos três melhores cirurgiões-plásticos de Arraial da Serra. Dona Magda, esposa do Dr. Fortes, exigiu que o marido fizese algumas mudancinhas em seu rosto. Queria um nariz mais altivo, um queixo mais delineado, olhos amendoados, bochechas arredondadas e orelhas um tantinho menores.
Dr. Fortes fez tudo como a mulher queria. Um mês depois pediu divórcio. Ele afirmou que antes da plástica Magda era única (feia, mas única) e que agora era apenas uma mulher perfeita como qualquer outra que passasse pelas suas mãos.

XXII
Marilda, casada com o Coutinho da farmácia, tinha seis filhos. Já era um bom número, mas, por obra de Deus (ou de Coutinho), ela ficou grávida de novo. Coutinho, quando viu a mulher de barriga, perdeu o interesse e arranjou uma amante: Soraia. Marilda ficou tão desgostosa que apenas ficou em casa até nascer a criança. Depois pegou suas coisas e deixou os sete filhos para trás. Coutinho então pôs Soraia para cuidar do lar e dos filhos, o que deixou Soraia muito contente.
Mas agora Coutinho já não acha Soraia interessante. Ele diz que ela está com cara de dona-de-casa. Voltou a procurar Marilda e os dois andam se encontrando às escondidas.

XXIII
Casimiro e Delmiro são caçadores. Caçadores dos bons, daqueles que nem precisam mentir. Eles sempre se deram muito bem, mas hoje parece que a amizade terminou. É que eles prenderam Dirce numa armadilha. Dirce é uma legítima harpia, um daqueles seres que têm rosto de mulher e corpo de abutre.
Casimiro diz que ela é a mais bela mulher do mundo e quer casar com ela. Delmiro acha que Dirce é um pássaro e quer comê-la, ensopada e com batatas.

XXIV
Cacilda era feia. Muito feia. A mulher mais feia do mundo (ou pelo menos de Paraisópolis, o que dá no mesmo).
Ariosto, talvez míope pela paixão, só reparou na desarmonia das linhas de Cacilda depois do casamento. Enquanto isso, Cleiton, seu irmão, casou-se com Dulcinéia, a mais bela moça da cidade. Para não se sentir humilhado frente ao irmão, sempre que os casais se encontravam Ariosto falava das qualidades de Cacilda. Contava dos maravilhosos pratos, da casa impecável e até insinuava alguns prodígios noturnos.
A tática deu certo. Cleiton não só reconheceu que Cacilda era mais interessante que Dulcinéia, como fugiu com a esposa do irmão; o que talvez prove que não são poucos os homens que enxergam mais pelos ouvidos que pelos olhos.

XXV
Ulisses já deu mil trezentos e vinte e seis poesias de amor para Dulcinéia. Mas Ulisses é quase analfabeto. O que ele faz é copiar com sua letra poemas alheios, desde Camões até Bandeira. O que ele não sabe é que desde o primeiro poema Dulcinéia descobriu sua fraude. E que é justamente isso que ela acha mais poético em Ulisses.

XXVI
Lucrécia não é exatamente uma mulher fiel. Já se deitou com o padeiro, o leiteiro, o açougueiro, o merceeiro, o quitandeiro e até com peixeiro. Por isso sua geladeira está sempre bem abastecida. Os boatos da vizinhança já chegaram até os ouvidos de Janjão. Mas ele não se importa. Sua única preocupação é comprar uma geladeira maior.

XXVII
Depois do primeiro aniversário de casamento, Branca de Neve começou a sentir saudade dos sete anões. É claro que o Príncipe Encantado era tranquilo, corajoso, forte, destemido, belo, educado e gentil. Mas faltava alguma coisa. Os anões, mesmo sendo um pouco baixinhos, eram mais divertidos e sempre havia a variedade, fator que tanto auxilia a preservar os afetos.
Depois de muito hesitar, Branca de Neve olhou-se no espelho e perguntou para si mesma de quem ela mais gostava. Respondeu-se que amava os anões e fugiu de volta para a floresta.
Os anões, quando a viram, fizeram sete dias de festa.
O Príncipe ficou um tanto triste no começo, mas logo consolou-se nos braços de uma arrumadeira. Aí sim, todos ficaram felizes para sempre.

XXVIII
Quando Pompéia descobriu que Maria de Lourdes havia dormido com Rodrigo Augusto, o grande galã da novela das oito, primeiro quis matá-la, depois pensou apenas em socá-la até quebrar a mão, mas acabou não fazendo nada disso.
Com o passar do tempo, foi até crescendo-lhe um certo orgulho por ter dividido a mulher com Rodrigo Augusto, tanto que passou a confessar o caso da mulher aos amigos.
Eles escutavam com espanto e não entendiam porque uma mulher que havia dormido com Rodrigo Augusto, o grande galã da novela das oito, voltaria para Pompéia.
Começou-se a imaginar que ele deveria ter enormes qualidades secretas.
Pompéia acabou construindo uma sólida reputação e passou a ser observado com inveja pelos amigos e curiosidade pelas mulheres.

XXIX
Neneca jogava sinuca todas as noites. Marilu, que ficava em casa sozinha, ameaçou pedir o desquite. A solução de Neneca foi levar a mulher para os jogos.
Não foi uma boa idéia. Marilu rapidamente virou a melhor jogadora do salão e todas as noites vence Neneca com uma vergonhosa facilidade. Os amigos dizem que Neneca anda meio abatido e pensa seriamente em suicídio.

XXX
Margarida, prostituta, apaixonou-se por um de seus clientes, Rosemiro. Para seu amado freguês, Margarida fazia o que de melhor sabia em sua profissão. Rosemiro acabou por apaixonar-se. Margarida, para expressar seu amor, decidiu não mais cobrar de Rosemiro. Rosemiro, para demonstrar sua paixão, queria pagar em dobro.
Os dois ficaram muito ofendidos. Margarida diz que ele só pensa em dinheiro. Rosemiro diz que ela só pensa em sexo.

XXXI
Todos os dias Átila batia em Zinha, sua mulher. Preferia usar um pedaço de pau que ele guardava embaixo do colchão, mas às vezes, quando estava com pressa, usava uma cadeira ou até mesmo a concha de feijão. Zinha suportava tudo. Nunca revidava e chorava o mais baixo que podia.
Mas numa segunda-feira Átila chegou em casa e foi direto dormir, sem dizer uma palavra, sem dar um soco. Zinha achou estranho, mas não falou nada.
Na terça-feira aconteceu a mesma coisa. E assim na quarta, na quinta e na sexta.
No sábado Átila amanheceu morto com uma faca de cozinha no peito. Para o delegado, Zinha explicou: "Alguma ele estava aprontando, doutor."
XXXII
O que a cidade de Mirassol mais gosta é de sua bandinha, que todo domingo toca no coreto da praça. Seus astros principais são Ovídio, o maestro, e Aurélio, o tocador de tuba. Eles são tidos como verdadeiros virtuoses pelos munícipes. Mas há um problema. O maestro e o tubista amam a mesma mulher, Izildinha.
A banda já não é mais a mesma e desafina até nas partituras mais simples. A cidade anda meio triste e só Izildinha, surda de nascença, é a única que não percebe nada.
XXXIII
Íris cuidou de Esteves durante doze anos e pouco a pouco juntou dinheiro para o transplante, numa irrefutável prova de amor e dedicação.
Mas quando Esteves acordou da operação e viu pela primeira vez o rosto de Íris, não conseguiu segurar a exclamação e disse que Íris não era tão bonita quanto ele esperava. A pouco diplomática frase foi considerada pelo júri como agressão, e o fato de Íris ter furado os novos olhos do marido foi julgado como legítima defesa.
XXXIV
Fred gostava muito de Suzy, que não dava a mínima para seu companheiro de fábrica. É que Fred teve um acidente e ficou sem o braço direito. Porém, como Deus é muito sábio, certo dia Suzy ficou presa na cortadeira automática e perdeu seu braço esquerdo.
Suzy entendeu o sinal divino. Casou-se com Fred e todo domingo eles podem ser vistos passeando de mãos dadas pela pracinha de Paraisópolis.
XXXV
Manuela é uma portuguesa com forte buço. Por causa disso nunca tinha arranjado um namorado. Até que conheceu Oto, o barbeiro da cidade. Ele ficou enlouquecido por Manuela e dizia que ela tinha tudo o que ele sempre sonhara numa mulher. Oto e Manuela casaram-se e viveram felizes por três anos, até que passou pela cidade o Circo de Variedades Istambul e trouxe Olga, a mulher barbada. Oto deixou Manuela e foi viver com Olga. Manuela, porém, não desistiu. Faz tratamento para crescimento de pelos, já fez muito progresso e tem certeza de que um dia reconquistará seu amor.
XXXVI
Seu Raul é pai de João Marcelo. Quando seu Raul descobriu que João Marcelo fazia shows de transformismo, expulsou o rapaz de casa. Dona Neide, esposa de seu Raul e mãe de João Marcelo, ficou tão desgostosa que faleceu depois de alguns meses. Viúvo e sozinho, seu Raul teve que ir morar com João Marcelo. Lá conheceu e se apaixonou por Gisele Cristina, que também atende pelo nome de Luiz Adelmo. Hoje eles são uma família feliz.
XXXVII
Poucas vizinhas são tão amigas quanto Ruth e dona Noemi.
Dona Noemi é casada com o Dr. Alaor, que sempre foi um marido severo, de pouca conversa e nenhum agrado. Mas quando ele começou a trair dona Noemi com Ruth, sua transformação foi imensa. Como acontece com muitos maridos infiéis, Alaor passou a ser gentil e carinhoso (sendo que, às sextas-feiras, traz até flores para a esposa).
No dia que dona Noemi descobriu que era Ruth a causa da mudança do marido, tomou uma atitude: Foi até a vizinha e deu-lhe um bolo de chocolate como agradecimento.
Poucas vizinhas são tão amigas quanto Ruth e dona Noemi.
XXXVIII
O que Maria Imaculada mais gostava de fazer era cuidar da roupa de Armandinho. Era o jeito de mostrar seu grande amor pelo marido. Ela mesma lavava tudo e não havia camisa que não ficasse branquíssima depois de passar por suas mãos apaixonadas. Armandinho, agradecido mas pouco entendido da alma feminina, deu-lhe de presente uma máquina de lavar. Imaculada chorou muito, e Armandinho pensou que fosse de felicidade.
Não era, e as camisas de Armandinho hoje estão com um tom triste e amarelado.
XXXIX
Carmelita orgulhava-se de ser uma grande cozinheira. Henricão, que antes do casamento era chamado apenas de Quinho, não se cansava de elogiar a esposa. Para fazer Henricão feliz - e para receber elogios -, Carmelita não se cansava de fazer os melhores pratos do mundo para o marido, que, por sua vez, não cansava de comê-los e a cada refeição ficava mais apaixonado.
O final do caso não foi dos mais alegres. Henricão, com seus duzentos e dez quilos, sufocou Carmelita durante uma apaixonada cópula. Carmelita, não se sabe bem porquê, morreu com um estranho sorriso nos lábios.
XL
Farid ia a todos os jogos do Flamengo e não ia perder justamente a final. Isabela protestou. Se ele fosse a mais esse jogo ela prometia quebrar tudo. Pior: ia chamar o primeiro homem que passasse pela rua para dentro de casa. Farid chegou a titubear, mas, paixão por paixão, a pelo Flamengo falava mais alto. Se se tratasse de um amistoso, ele talvez até ficasse em casa, mas numa final, jamais.
Durante a partida, Farid nem lembrou da ameaça da mulher, mas enquanto voltava não conseguia pensar em outra coisa. Por via das dúvidas, passou na casa de um compadre e tomou emprestado um trinta e oito.
Quando chegou, foi até a porta do quarto e abriu-a com um chute tremendo. Lá dentro viu o que menos queria ver: Isabela tinha cumprido a promessa. Farid apontou a arma para o homem (que se chamava Zózimo) e mandou-o ficar ao lado da cama para não sujar o lençol de sangue. Foi aí que aconteceu o milagre. Quando Zózimo ficou de pé, Farid viu que ele estava com uma cueca com listras vermelhas e negras.
Por sua vez, Zózimo viu que Farid usava uma camisa do Flamengo e fez um último desejo: pediu para saber o resultado do jogo antes de morrer. Farid respondeu o placar, explicou como foi o gol e acabou narrando os principais lances da partida.
A cada jogada que ia escutando, Zózimo dava sinceros suspiros e lamentava ter perdido o jogo.
Os dois acabaram bebendo uma caixa de cerveja na cozinha e acertaram de ir juntos ao próximo jogo.
A única que não ficou feliz foi Isabela, que já sonhava morrer numa cena de sangue e ciúme, e virar manchete de jornal.

26 Maio, 2009

"Why is it always reasonable in Houseland to take an emotional problem and sidestep it by turning it into a mechanical problem?"
(Dr. James Wilson, no seriado médico House)

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de alguém.

É um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa. O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matérias de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.

Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na platéia da consciência.

Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…

Disse mal o escoliasta de Virgílio. É de compreender que, sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.

(Fernando Pessoa)

13 Maio, 2009

Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo mar, o
lugar deles é lá. Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira
trazê-la para a terra. Curta o sol, se deixe acariciar por ele, mas
lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no
céu. Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda a
parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde. Não apare a
chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só
o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na
sua, em todas as faces. O sorriso! Esse você deve segurar, não
deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama? Guarde dentro de um porta jóias, tranque,
perca a chave! Quem você ama é a maior jóia que você possui,
a mais valiosa. Não importa se a estação do ano muda, se o
século vira, conserve a vontade de viver, não se chega a parte
alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas
não enlouqueça por elas.
Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso. Olhe para
o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo, só saia dessa agonia se conseguir
tirá-lo também. Procure os seus caminhos, mas não magoe
ninguém nessa procura. Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando
julgar necessário. Alague seu coração de esperanças, mas não
deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada."

(Fernando Pessoa)

06 Maio, 2009

Toca Kierkegaaaaaaaard!

"Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida... nem na futura!"
(Soren Kierkegaard)

Eu sou a areia da ampulheta
O lado mais leve da balança
O ignorante cultivado
O cão raivoso inconsciente
O boi diário servido em pratos
O pivete encurralado
Eu sou a areia da ampulheta
O vagabundo conformado
O que não sabe qual o lado espreita
O pesar das pirâmides
Cachaceiro mal amado
O triste-alegre adestrado
Eu sou a areia da ampulheta
O que ignora a existência
de que existem mais estados
Sem idéia que é redondo
o planeta onde vegeta
Eu sou a areia da ampulheta
Eu sou a areia
Eu sou a areia da ampulheta
Mais um que carrega sua bandeira
De todo o lugar o mais desonrado
Nascido no lugar errado
Eu sou, eu sou você

(Areia da ampulheta, Raul Seixas)